Estávamos os quarto – Gérard, Júlio Fiadi, Leila Chamma e eu – enlatados num jipe Suzuki atravessando a turfa em direção a Volunteer Point, nas Malvinas.
Como ambos os homens são altos, ficaram nos assentos dianteiros enquanto no banco traseiro, Leila e eu tivemos que ajeitar os joelhos na altura do queixo.
Viajar nesse carro já é um calvário no asfalto mais liso da Terra. Ao cruzar os desnivelados pântanos de turfa seca, onde às vezes nem trilha tinha, o carro pulava como um canguru doido. Não posso dizer que eu e Leila sofremos em silêncio.
Após uma hora dessa surra, além de estar com as costas doloridas e as pernas quebradas, sentia náusea e muito frio. Por minha causa, paramos um pouco para respirar o ar puro e culpando a fome pela náusea, comemos os sanduíches. Meus três “mui amigos” acharam que me faria bem andar um pouco para me esquentar. Eu não quis: minha vontade era dormir. Mas insistiram e pularam dentro do carro para me obrigar a caminhar. Andei uns dois quilômetros, doida para sentar no carro de novo, por mais desconfortável que fosse.
Quando alcançamos Volunteer Point depois mais uma hora de tortura, os três foram conversar com os pingüins-rei, uns 700 deles. Eu já esquecera dos 4.500 km percorridos desde o Rio de Janeiro para chegar até ali e observar pingüins: só quis dormir. Deitei mal-ajeitada no maldito banco traseiro e fechei os olhos. Mas tarde, fiz um esforço imenso para me levantar e ir até a colônia dessas aves cativantes, com sua elegante roupa preta e enfeite “cheguei” de amarelo, mas não consegui me animar para tirar uma foto sequer. No longo caminho de volta a Port Stanley, graças à minha coluna dolorida, fui promovida ao banco dianteiro e Júlio teve que se desdobrar como um Houdini no banco de trás.
Na cidade, já me sentindo péssima, segui os conselhos dos amigos: banho quente, Voltaren para a dor de coluna e aspirina para a dor de cabeça. Culpei o Suzuki pelos dores no corpo. Culpei o vento vindo do Antártico por me sentir “meio fora de forma” e não fiquei de repouso. Segui com náusea e sem fome, culpando a falta de comida pelas tonteiras que sentia. Quando tive sangramento no nariz, culpei o ar seco do lugar.
Finalmente, quando minha pele avermelhada e não podíamos culpar o sol, parei de procurar mil justificativas e deixei a ficha cair. A dengue ataca quando menos esperada. Estávamos há cinco dias nas Malvinas – nove desde que saímos do Rio – e, longe dos jornais falando da doença, não passou pela cabeça de ninguém que poderia estar com dengue! Por tanto, fiz tudo errado, inclusive tomando dois remédios na lista negra.
Às vezes a gente não quer enxergar mesmo. Procuramos outras explicações, chegando a conclusões erradas. Mas tive sorte, porque repouso não entrou no cardápio, e de volta ao Rio de Janeiro, o exame de sangue confirmou a dengue. Claro, não peguei nas Malvinas onde nem há mosquitos e nenhum medico ia saber fazer a diagnóstica! Levei a doença, incubada, desde o Rio de Janeiro.
Texto escrito como coluna para www.360graus.com.br
27 abril, 2009 as 16:10
Margi, fiz minha homenagem a vocês, que inspiraram tantas noites de viagem à luz do meu abajur de cabeceira como se eu sentisse cada solavanco dos aviõezinhos, no meu blog hoje. Bom ver que vocês continuam na ativa por esse que deveria ser um objetivo mundial, mas, embora ainda não seja, nós compartilhamos tão apaixonadamente: cuidar do nosso planeta. Venha visitar: http://scienceblogs.com.br/bessa/2009/04/o_sorriso_do_talha-mar.php