[SinglePic not found]Timbuktu? Onde é isso?
É onde o vento faz a curva; onde Judas perdeu as botas. Timbuktu é a palavra usada em inglês para se referir a um lugar bem remoto.
Mas ela tem peso próprio, secular, dispensando maiores explicações, apesar de muitos não saberem que se trata de uma cidade de verdade, encravada em pleno Saara no Mali.
No Brasil, talvez com a exceção de alguns pilotos do Paris-Dacar, a maioria nunca ouviu falar desse lugar muito especial.
No século XV, era um respeitado centro islâmico e poderoso núcleo comercial, onde o ouro trazido, claro, da Costa de Ouro, era trocado por sal… com valores equivalentes! Durante muitos anos, a cidade era um “El Dourado” perdido no deserto. Em seu auge, a cidade contava com 100 mil habitantes.
Durante décadas, permaneceu uma cidade fechada aos estrangeiros. O explorador escocês Laing é considerado o primeiro europeu a pôr os pés no local. Ele chegou ao local em 1826, e foi assassinado ao deixar a cidade. Dois anos depois, o francês Caillé também conseguiu alcançá-la, só que disfarçado de árabe, tornando-se o primeiro homem branco a sair vivo dali.
Conheci o lugar em 1989 com Gérard, pousando ali no monomotor “Romeo”. Na época, não havia vôos comerciais para Timbuktu, e a viagem por terra levava três dias da capital, Bamako. Tudo é de areia, cidade e redondezas. Aliás, chegamos logo depois de uma tempestade de areia. Perambulamos pelas ruas de areia, entre casas feitas de “banco” de areia (um tipo de adobe) e passeamos de camelo pelo mar de areia. Não vimos outros turistas e os dois hotéis estavam literalmente às moscas.
Em junho de 2002, Gérard esteve novamente em Timbuktu, hoje com 30 mil habitantes, quando fez uma escala em um vôo de traslado entre Nova York e Nairóbi, no Quênia.
Seu espanto começou logo no aeroporto. As instalações eram novas em folha, mas o pessoal, ao que tudo indicava, era o mesmo. Disseram que se lembravam dele, deixando-o incrédulo. Passaram-se 13 anos. Mas tudo bem: são raros os monomotores estrangeiros que se aventuram pelo Mali adentro.
Quando, ao entardecer, Gérard foi repetir o passeio de camelo que fizéramos juntos tantos anos antes, pensou que fosse gozação quando o tuaregue, dono dos animais, o reconheceu. Irreconhecível envolto em suas tradicionais vestimentas azuis, ele não havia por que abrir à toa uma conversa com “Você não esteve aqui antes?”. A probabilidade de errar era de 99,9%. Pouquíssimas pessoas visitam Timbuktu; menos ainda passam por lá duas vezes na vida.
De duas coisas, uma: ou a memória dos habitantes de Timbuktu é excepcional ou é uma prova de quão poucos estrangeiros fazem o esforço de alcançar esse canto perdido onde o vento faz a curva.
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