Adis Abeba, Etiópia

23 de agosto de 1990

Enquanto isso, o Mercato, maior mercado da África, era o mais triste que visitáramos até então. Sentimo-nos terrivelmente visíveis no mar de crianças pedintes, leprosos e vítimas da guerra. Era impossível decidir a quem ajudar. Séculos antes, os abissínios construíam elegantes castelos e escreviam manuscritos, enquanto os europeus ainda eram saqueadores bárbaros. No entanto, ainda não havíamos visto miséria como esta no resto da África. Os etíopes, que se defendiam do frio matinal envoltos em shamma, véus brancos, passeavam por entre coloridos cestos de injera, lã de carneiro, tapetes, antigas moedas de prata, ferramentas e vassouras. Frutas e legumes eram expostos no chão. Em pé, pobres e famintos olhavam com cobiça os produtos que não podiam comprar.

Dois rapazes haviam comprado uma balança de banheiro, cobrando alguns centavos daqueles que queriam se pesar. Ninguém queria. Não queriam saber quanto pesavam seus ossos. Para dar-lhes algum contentamento, subi na balança e um grupo formou-se a minha volta cantando o número de quilos. Me senti obesa no meio desse povo flagelado pela fome.

Do livro “A Volta por Cima”, Cap 11. Editora Record

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